Residência artística em Milão, em tempos de Pandemia. Crítica pelo mestre D´Ambrosio

#Repost @arteemtempodecoronavirus
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Arte em tempo de Coronavírus (18)

As imagens têm um poder de comunicação já muito estudado e, às vezes, difícil de imaginar. Perante uma situação inédita, para a maioria da população, de isolamento social, elas se tornam ainda mais vigorosas. Declaram aquilo que muitas vezes tentamos colocar em palavras, mas não conseguimos.
Talvez isso ocorra porque tenhamos medo de nós mesmos, de ser capazes de expressar algo que a nossa mente engendra.

Carolina Saidenberg, artista plástica de São Paulo, que participa de uma residência artista em Milão, Itália, online, sobre o coronavirus, está postando obras sobre o tema no perfil @saiden_art até dia 14 de abril quando acaba a residência.

Esta obra é uma das que produziu nesse período de isolamento social. Trata-se de um dos sentimentos possíveis, cristalizado em imagens, sobre a quarentena e o que ela significa interiormente. É significativo que apareça a imagem de uma cobra, figura associada biblicamente, na tradição ocidental, ao mal, ao perigo e ao castigo.

Talvez uma leitura ainda mais significativa seja ver na serpente o estranhamento, pois se trata de um ser enigmático, principalmente pelo fato de não ter pastas e se arrastar pelo chão, mas poder estar em árvores ou na água, com um poder de ataque mortal. Ela, assim como o coronavírus, nos espreita a qualquer momento. E pode ser letal.
Mais informações: Http://carolinasaidenberg.com

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

O confinamento é uma espécie de redoma. Ela nos protege de algo, mas também nos leva para dentro de nós, em uma prática que nem todos estamos habituados ou preparados a praticar. Sair fortalecido e saudável desse processo é mais um desafio em tempo de coronavírus. A COVID-19 nos aprisiona, mas, sob certo aspecto, poderá libertar.

O trabalho de Carolina Saidenberg neste post evoca referências de nossa cultura ocidental que se acumulam e multiplicam. A maçã traz, é claro, sempre, a ideia do pecado original, mas também é o fruto aparentemente saboroso que a Bela Adormecida vai morder antes de seu sono, do qual apenas irá acordar com o beijo do Príncipe Encantado.

E a redoma também nos faz lembras da célebre flor, em “A Bela e a Fera”, cujas pétalas cairão progressivamente até que a maldição se realize por completo, a não ser que o Príncipe, transmutado em Fera, receba o beijo redentor pelo de “amor verdadeiro”. E na delicadeza de ver a essência lindeza interna do aparente externo feio que o milagre do amor se realiza.

Em tempos de quarentena, a pergunta é quando virá o beijo do amor verdadeiro que desperta da maldição? A Bela Adormecida recebe o seu, assim como a Fera. Ambos se salvam e vivem felizes para sempre. Nós, humanos, não temos “para sempre”. Nossa finitude está posta, mas a consciência social e a dedicação dos profissionais de saúde alertam que ela pode ser adiada.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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